Tendo subjacente o contexto
geográfico da Península de Peniche é perceptível que todo o seu
desenvolvimento, demográfico, social e económico, se tenha processado
desde sempre em torno de actividades ligadas à pesca e transformação do
pescado.
Este facto permitiu que
Peniche se viesse a tornar num pólo atractivo no que respeita à
oportunidade de trabalho, pelo que ao longo de décadas se foi fixando
população vinda de outras zonas do litoral do país, do Norte ao Sul.
Para além deste aspecto,
outros factos vieram a contribuir para o reforço desta mobilidade e
fixação de famílias, com a abertura de novas fábricas de conservas, que
ocorreu no início do século XX e cuja produção era destinada ao consumo
interno e exportação, como forma de fazer face às necessidades sentidas
ao nível da alimentação, decorrentes também dos efeitos da II Guerra
Mundial.
Á medida que iam chegando,
estes operários e respectivas famílias foram-se instalando na cidade
passando a residir em precárias condições de habitabilidade,
nomeadamente em barracas de madeira, sem condições de higiene e
salubridade, em áreas muito exíguas e em situação de sobreocupação.
Neste contexto a carência
habitacional passou a constituir um problema social preocupante, uma vez
que, subjacente a este facto, eram igualmente muito precárias as suas
condições socio-económicas, sendo de realçar as situações de extrema
pobreza existentes.
A partir de 1974 um novo
facto relacionado com o regresso repentino a Portugal de milhares de
pessoas vindas das ex-colónias, tendo muitas delas na altura sido
encaminhadas para Peniche, passando a residir nas instalações do Forte,
antiga prisão de presos políticos, veio provocar o surgimento de novas
necessidades habitacionais, às quais era urgente dar resposta pelas
condições de extrema precariedade em que durante vários anos estas
pessoas permaneceram.
Ainda durante a década de 70
importa destacar um outro facto relacionado com a chegada ao concelho de
famílias de etnia cigana que aqui se foram fixando e instalando em
barracas, construídas pelos próprios e sediadas em terrenos privados.
Estas, foram dando origem a novas famílias, sendo actualmente 25 o
número de agregados familiares residentes, num total de 98 indivíduos, a
residirem nas mesmas condições, tratando-se efectivamente de um
problema social que urge resolver.
Todo este contexto, associado
sobretudo à precariedade e incerteza de rendimentos das famílias que se
continua a verificar actualmente, assim como, à precariedade dos
vínculos laborais, às baixas qualificações escolares e às baixas
competências pessoais e sociais, tem inviabilizado ao longo dos tempos o
acesso a uma habitação condigna por parte de uma franja significativa
da população, pela sua incapacidade em aceder ao mercado livre da
arrendamento, que assume neste concelho valores especulativos, uma vez
que muitos dos proprietários priorizam o arrendamento a turistas,
estudantes e professores, como forma de maior rentabilização do imóvel.