AMIGOS DE PENICHE – UMA PARTIDA DA HISTÓRIA

AMIGOS DE PENICHE – UMA PARTIDA DA HISTÓRIA
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A expressão enraizou-se com este sentido na linguagem portuguesa comum sem que a maior parte dos que a pronunciamos nos interroguemos sobre a origem e a razão de ser de tal anátema arremessado sem qualquer piedade sobre Peniche e os penichenses.

NOTA DE IMPRENSA

“Amigo de Peniche”? Um parceiro desleal, um sujeito que não nos merece confiança…

A expressão enraizou-se com este sentido na linguagem portuguesa comum sem que a maior parte dos que a pronunciamos nos interroguemos sobre a origem e a razão de ser de tal anátema arremessado sem qualquer piedade sobre Peniche e os penichenses.

Nada mais injusto

Nada menos verdadeiro.

A expressão “Amigos de Peniche” com o significado que se lhe atribui é, afinal, uma partida da História e deve ferir sim aqueles que vieram de fora com o objectivo de libertar Portugal da ocupação espanhola e logo se foram, quase sem combater, de regresso à Inglaterra de Isabel I afugentados pelos canhões do Castelo de S. Jorge.

Os “amigos” que em 1589 desembarcaram em Peniche para levar D. António, Prior do Crato, ao trono onde se sentara Filipe de Espanha, trouxeram esperanças aos patriotas portugueses quando chegaram e deixaram repressão, amargura e desilusões quando fugiram pouco depois “com o rabo entre as pernas”, como também se diz em Portugal.

Não eram nem “amigos” e muito menos de Peniche – onde receberam, aliás, todo o apoio patriótico para poderem cumprir os seus objectivos.

De modo a tornar mais conhecida a verdadeira história, a Câmara Municipal apoiou a montagem de uma peça de teatro na qual se dramatizam factos reais e se identificam os autênticos “amigos de Peniche”. Vai à cena às 10 da noite do dia 27 de Maio no lugar mais adequado e onde começou bem um episódio histórico que acabou mal – a Fortaleza de Peniche.

Assim se passaram as coisas…

Foi em 26 de Maio de 1589 – há exactamente 417 anos – que desembarcaram na baía da Consolação 6500 soldados ingleses comandados pelo duque de Essex. Faziam parte de uma poderosa expedição militar de 140 navios e 27.600 homens comandados pelo almirante John Norris que vinha ajudar D. António, Prior do Crato, a apear o seu primo Filipe II de Espanha do trono de Portugal e restaurar a soberania portuguesa.

D. António conseguira de Isabel I de Inglaterra esta imponente armada, de uma envergadura então apenas comparável à “Invencível Armada” espanhola devastada pelos ingleses dois anos antes na Mancha.

Além da famosa “velha aliança” havia interesses comuns na base desta expedição: D. António queria o trono de Portugal; Isabel I desejava impedir os esforços espanhóis de reconstituição do poderio naval de modo a tirar da cabeça de Filipe II a ideia de invadir Inglaterra.

Tudo começou bem: a Fortaleza de Peniche caíu em poder dos homens de Essex desembarcados na Consolação. Aliás, a guarnição portuguesa, submetida a comando espanhol, não deu muito que fazer aos forasteiros.

Enquanto as tropas que desembarcaram rumavam por terra a Lisboa, o resto da frota, sob o comando do célebre Francis Drake, seguiu para Cascais. Os objectivos da invasão eram os seguintes: cercar Lisboa por terra e por mar e ainda ocupar os Açores de modo a cortar a “rota da prata” espanhola.

Os habitantes de Atouguia da Baleia, da Lourinhã, de Torres Vedras, de Loures sentiram logo na pele que aqueles “amigos” eram especiais porque estavam mais interessados em saquear do que em concentrar-se no ataque final a Lisboa.

Às portas da capital as forças terrestres colocaram-se primeiro no Monte Olivete mas mudaram a seguir para o Bairro Alto e logo para a Esperança quando Gabriel Niño fez uso dos canhões do Castelo de S. Jorge. A artilharia prometida por Isabel I a D. António não viajara na expedição, assim se limitando a capacidade de resposta. Francis Drake esperava em Cascais a entrada terrestre em Lisboa para cercar a cidade no Tejo; os homens de John Norris, porém, pouco faziam para atacar a bem fortificada e melhor defendida capital, onde os espanhóis tinham reforçado a guarnição e a repressão. As prisões estavam cheias, as execuções de resistentes sucediam-se.

Dentro das muralhas, entretanto, os patriotas prontos a combater e que sabiam do desembarque inglês interrogavam-se: “Que se passa com os nossos amigos que desembarcaram em Peniche? Quando chegam os nossos amigos de Peniche?”

Esses “amigos” manifestavam pouca vocação para agir combatendo os espanhóis. É certo que D. António, para conseguir tão forte exército, também recorrera ao argumento de que as populações portuguesas se sublevariam ao seu lado contra os espanhóis, de tal modo que talvez nem fosse necessário combater…

Mas a ocupação assentava numa repressão feroz, reforçada nesses dias. O levantamento popular não aconteceu.

Menos de um mês depois do desembarque, em vez de atacar Lisboa, a expedição inglesa regressou à base. Mal combatera mas sofrera danos importantes sem alcançar qualquer dos objectivos. Filipe II (I de Portugal) ficou no trono, a reconstrução do poderio naval espanhol não foi afectada, a “rota da prata” não sofreu qualquer perturbação, os Açores não foram ocupados.

Isabel I castigou Francis Drake com seis anos de afastamento da corte e dos mares. D. António, Prior do Crato, morreu em 1595, na miséria, no seu exílio de Paris.

Eis, em poucas palavras, a verdadeira história dos “amigos de Peniche”.

Que afinal não eram “amigos” – antes mercenários que queriam ganhar sem combater.

E que, principalmente, não eram de Peniche, nem portugueses. Porque estes desejavam acima de tudo o fim do domínio espanhol.

E de tal modo teimaram nesse objectivo que em 1640 recuperaram a soberania.

Peniche, 25 de Maio de 2006

 


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