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Resumo da Comunicação apresentada na Sessão de Acolhimento aos novos Alunos e Professores do ano letivo 2016/2017 da Universidade Sénior de Peniche.
Vivemos mais anos porque vivemos melhor. O aumento da longevidade, no tempo histórico da consagração dos direitos sociais e humanos, está associado a profundas transformações sociais, cientificas, económicas e culturais. Constitui uma conquista civilizacional. É indicador de desenvolvimento e não constrangimento desse processo, como é afirmado pela OMS.
O aumento de cerca de 13 anos na esperança média de vida em Portugal entre 1970 e 2015 é revelador desta correlação. Ele acontece com a universalidade da garantia dos direitos à educação, à saúde, á protecção social, pilares do desenvolvimento social e dos processos de desenvolvimento humano.
Vivemos em sociedades envelhecidas. A mudança demográfica, simultaneamente gerada e geradora de transformação social, marca o tempo histórico da sociedade, do lugar em que cada um faz a experiência de envelhecer,
Viver mais anos alonga o nosso percurso como adultos. A organização deste mais tempo reflecte mudanças na relação com os outros, com a família (na coexistência de quatro ou cinco gerações), com o trabalho, com a formação, com o lazer, com o próprio desejo de criar, na área cultural.
O que observamos são percursos de vida marcados pela pluralidade/complexidade dos papéis e das identidades. É cada vez mais “normal” poder ser-se simultaneamente filho, pai e avô.
As relações intergeracionais no seio da família põem em evidência novas formas de ajuda, de trocas, de transferências, quer materiais quer culturais. Para o que não deixa de concorrer também a dispersão dos núcleos familiares consequente aos movimentos migratórios.
Este é também um tempo histórico marcado pelas descontinuidades dos trajectos de inserção profissional, associadas a mudanças na organização social do trabalho, produzindo alterações nos tempos/fases do ciclo de vida e mudança no valor do trabalho enquanto realização pessoal.
A passagem cada vez mais longa entre conclusão de formação, no caso dos jovens, e entrada na vida activa, é reveladora deste “novo” tempo do ciclo de vida. O mesmo relativamente à persistência do desemprego de longa duração acima dos 40 anos, em simultâneo com a tendência para retardar o acesso à reforma, produzindo uma nova etapa entre vida activa/trabalho e reforma. Por outro lado, os riscos de saúde nas idades mais avançadas, dando lugar às designações ‘velhice autónoma’ e ‘velhice dependente’, expressam de alguma forma uma perigosa dicotomia entre dois tempos desta fase da vida. Perigosa pela categorização que produzem. A dependência não é uma inevitabilidade na velhice. Pode ser prevenida, mas quando acontece não tem de excluir. Faz parte de riscos da existência que dão direito à protecção da sociedade.
Vivemos, pois, em sociedades de complexidade crescente, na qual se exprimem a diversidade dos percursos biográficos e a maior autonomia das diferentes gerações.
A heterogeneidade do grupo com 50 e mais anos, os seniores, radica neste processo. A par de uma importância crescente, representam um capital humano que importa reconhecer e integrar na vida das nossas comunidades. São sujeitos de velhices com mais anos, com mais oportunidades mas também com novos riscos, na procura da construção do direito a envelhecer com dignidade e segurança em contextos de profunda aceleração do tempo histórico.
O Hoje anuncia maior heterogeneidade/singularidade dos percursos ao longo da vida, fazendo prever também maior pluralidade das vivências da velhice.
Envelhecer é uma busca de sentido. Trata-se para cada um de nós do encontro com a sua identidade e singularidade para poder dizer, Eu sou (e não eu fui). O que põe uma enorme questão sobre a construção das identidades ao longo da vida (Manlio Sgalambro,1999).
Que futuro para o envelhecimento, enquanto destino colectivo /Como construir o futuro do nosso envelhecimento como processo de desenvolvimento pessoal?
A irreversibilidade do envelhecimento enquanto fenómeno das sociedades contemporâneas e enquanto experiência do desenvolvimento humano tem evidentes repercussões na organização da sociedade, nas políticas sociais, na capacitação e no respeito pelo sujeito que interpreta e reorienta a sua vida em função das suas experiências e expectativas de autonomia e realização pessoal e social.
O desenvolvimento do potencial de cada um é a conquista da sua margem de liberdade, traduzindo o que nós fazemos do que a sociedade faz de nós, voltando a Sartre.
“A política deve ter em conta o continuum da existência. A partir do conhecimento dos problemas do envelhecimento, é possível intervir nas idades jovens, sabendo-se que as políticas têm efeitos no futuro dos indivíduos ”OCDE, 2000.
O que quer dizer, integrar os progressos de longevidade no processo de desenvolvimento social, económico e cultural de cada sociedade, garantindo direitos, reduzindo riscos e custos sociais e humanos associados a percursos de envelhecer sem qualidade. Eliminando todas as formas de discriminação pela idade.
As recomendações da 2ª Assembleia Mundial sobre o Envelhecimento, explicitam: participação na vida social, económica e política, oportunidades de emprego, com horários e condições de trabalho adequadas, protecção adequada das pessoas idosas mais pobres, no respeito pela sua dignidade e integridade, protecção contra as formas de exploração de que podem ser alvo, assegurando o respeito pelos seus direitos fundamentais.
Inscreve-se aqui o que vimos considerando como construção do direito a envelhecer com dignidade e segurança. Elo que une as diferentes gerações.
E apraz-me verificar que a Universidade Sénior de Peniche, tanto pela filosofia que a orienta como pelos valores que defende, se enquadra perfeitamente nesta “construção do direito a envelhecer com dignidade e segurança”.
14/10/2016
Geral
No passado dia 17 de Outubro a USP realizou a Sessão de Acolhimento aos novos Alunos e Professores do ano letivo 2016/2017, que teve lugar no Anfiteatro da ESTTM de Peniche.
31 Outubro 2016
A mesa que presidiu à Sessão foi integrada pelos Presidentes da CMP e da ESTTM, pela Presidente da AUSP, Associação que detém a Universidade Sénior de Peniche e pela oradora convidada, doutora Maria de Lurdes Quaresma.
Alunos, Professores e Convidados encheram o auditório, escutando com todo o interesse as intervenções e a Comunicação “Tempos do Envelhecer”.
A Sessão terminou com um animado “Coffee Break”, primeira oportunidade de convívio neste ano letivo, que se espera enriquecedor para todos os que fazem da USP, ano após ano, uma grande, feliz e muito solidária FAMÍLIA – e já somos, nesta altura, ente Alunos, Professores, Dirigentes e Instituições, mais de 360 pessoas desenvolvendo, com alegria, diariamente, um trabalho voluntário de grande utilidade social!
Alunos, Professores e Convidados encheram o auditório, escutando com todo o interesse as intervenções e a Comunicação “Tempos do Envelhecer”.
A Sessão terminou com um animado “Coffee Break”, primeira oportunidade de convívio neste ano letivo, que se espera enriquecedor para todos os que fazem da USP, ano após ano, uma grande, feliz e muito solidária FAMÍLIA – e já somos, nesta altura, ente Alunos, Professores, Dirigentes e Instituições, mais de 360 pessoas desenvolvendo, com alegria, diariamente, um trabalho voluntário de grande utilidade social!
Resumo da Comunicação apresentada na Sessão de Acolhimento aos novos Alunos e Professores do ano letivo 2016/2017 da Universidade Sénior de Peniche.
Maria de Lurdes Quaresma 1)
Vivemos mais anos porque vivemos melhor. O aumento da longevidade, no tempo histórico da consagração dos direitos sociais e humanos, está associado a profundas transformações sociais, cientificas, económicas e culturais. Constitui uma conquista civilizacional. É indicador de desenvolvimento e não constrangimento desse processo, como é afirmado pela OMS.
O aumento de cerca de 13 anos na esperança média de vida em Portugal entre 1970 e 2015 é revelador desta correlação. Ele acontece com a universalidade da garantia dos direitos à educação, à saúde, á protecção social, pilares do desenvolvimento social e dos processos de desenvolvimento humano.
Vivemos em sociedades envelhecidas. A mudança demográfica, simultaneamente gerada e geradora de transformação social, marca o tempo histórico da sociedade, do lugar em que cada um faz a experiência de envelhecer,
Viver mais anos alonga o nosso percurso como adultos. A organização deste mais tempo reflecte mudanças na relação com os outros, com a família (na coexistência de quatro ou cinco gerações), com o trabalho, com a formação, com o lazer, com o próprio desejo de criar, na área cultural.
O que observamos são percursos de vida marcados pela pluralidade/complexidade dos papéis e das identidades. É cada vez mais “normal” poder ser-se simultaneamente filho, pai e avô.
As relações intergeracionais no seio da família põem em evidência novas formas de ajuda, de trocas, de transferências, quer materiais quer culturais. Para o que não deixa de concorrer também a dispersão dos núcleos familiares consequente aos movimentos migratórios.
Este é também um tempo histórico marcado pelas descontinuidades dos trajectos de inserção profissional, associadas a mudanças na organização social do trabalho, produzindo alterações nos tempos/fases do ciclo de vida e mudança no valor do trabalho enquanto realização pessoal.
A passagem cada vez mais longa entre conclusão de formação, no caso dos jovens, e entrada na vida activa, é reveladora deste “novo” tempo do ciclo de vida. O mesmo relativamente à persistência do desemprego de longa duração acima dos 40 anos, em simultâneo com a tendência para retardar o acesso à reforma, produzindo uma nova etapa entre vida activa/trabalho e reforma. Por outro lado, os riscos de saúde nas idades mais avançadas, dando lugar às designações ‘velhice autónoma’ e ‘velhice dependente’, expressam de alguma forma uma perigosa dicotomia entre dois tempos desta fase da vida. Perigosa pela categorização que produzem. A dependência não é uma inevitabilidade na velhice. Pode ser prevenida, mas quando acontece não tem de excluir. Faz parte de riscos da existência que dão direito à protecção da sociedade.
Vivemos, pois, em sociedades de complexidade crescente, na qual se exprimem a diversidade dos percursos biográficos e a maior autonomia das diferentes gerações.
A heterogeneidade do grupo com 50 e mais anos, os seniores, radica neste processo. A par de uma importância crescente, representam um capital humano que importa reconhecer e integrar na vida das nossas comunidades. São sujeitos de velhices com mais anos, com mais oportunidades mas também com novos riscos, na procura da construção do direito a envelhecer com dignidade e segurança em contextos de profunda aceleração do tempo histórico.
O Hoje anuncia maior heterogeneidade/singularidade dos percursos ao longo da vida, fazendo prever também maior pluralidade das vivências da velhice.
Envelhecer é uma busca de sentido. Trata-se para cada um de nós do encontro com a sua identidade e singularidade para poder dizer, Eu sou (e não eu fui). O que põe uma enorme questão sobre a construção das identidades ao longo da vida (Manlio Sgalambro,1999).
Que futuro para o envelhecimento, enquanto destino colectivo /Como construir o futuro do nosso envelhecimento como processo de desenvolvimento pessoal?
A irreversibilidade do envelhecimento enquanto fenómeno das sociedades contemporâneas e enquanto experiência do desenvolvimento humano tem evidentes repercussões na organização da sociedade, nas políticas sociais, na capacitação e no respeito pelo sujeito que interpreta e reorienta a sua vida em função das suas experiências e expectativas de autonomia e realização pessoal e social.
O desenvolvimento do potencial de cada um é a conquista da sua margem de liberdade, traduzindo o que nós fazemos do que a sociedade faz de nós, voltando a Sartre.
“A política deve ter em conta o continuum da existência. A partir do conhecimento dos problemas do envelhecimento, é possível intervir nas idades jovens, sabendo-se que as políticas têm efeitos no futuro dos indivíduos ”OCDE, 2000.
O que quer dizer, integrar os progressos de longevidade no processo de desenvolvimento social, económico e cultural de cada sociedade, garantindo direitos, reduzindo riscos e custos sociais e humanos associados a percursos de envelhecer sem qualidade. Eliminando todas as formas de discriminação pela idade.
As recomendações da 2ª Assembleia Mundial sobre o Envelhecimento, explicitam: participação na vida social, económica e política, oportunidades de emprego, com horários e condições de trabalho adequadas, protecção adequada das pessoas idosas mais pobres, no respeito pela sua dignidade e integridade, protecção contra as formas de exploração de que podem ser alvo, assegurando o respeito pelos seus direitos fundamentais.
Inscreve-se aqui o que vimos considerando como construção do direito a envelhecer com dignidade e segurança. Elo que une as diferentes gerações.
E apraz-me verificar que a Universidade Sénior de Peniche, tanto pela filosofia que a orienta como pelos valores que defende, se enquadra perfeitamente nesta “construção do direito a envelhecer com dignidade e segurança”.
14/10/2016
1) Docente universitária. Investigadora e especialista em Gerontologia.
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Conteúdo atualizado em6 de agosto de 2019às 11:14

